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Direitos Humanos 70anos

O que é essa publicação?

De início, gostaria de dizer que qualquer tentativa de sintetizar o conteúdo aqui compreendido em dois ou três parágrafos seria uma falha já anunciada. Portanto, me poupo dessa aventura e digo: as mensagens que realmente importam estão espalhadas por todas as páginas, em interpretações incríveis, feitas por diferentes vozes, traços e cores. Basta ler as figuras.

Resolvida essa questão, um ponto é importante sublinhar: esse projeto foi realizado por iniciativa própria, e todos os envolvidos, de ponta a ponta, se cativaram pela ideia e colaboraram na construção desse material, motivados apenas pelas mensagens contidas na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na urgência em celebrá-las e propagá-las. Isso, por si só, já atribui uma característica especial e única a todo esse conjunto.

Para finalizar, durante a feitura dessa publicação, realizada em um período particularmente conturbado do nosso país, um pensamento em especial me alegrou bastante: vem tempo e vai tempo, e os desenhistas, meus amigos, sempre sabem por onde caminhar. É um prazer estar ao lado de todxs aqui presentes.

Celso Filho

A arte e os direitos humanos

por Revista Continente

 

Para nós, da revista Continente, apoiar este projeto do Mutirão diz muito sobre onde queremos estar. Queremos estar junto da arte, sabendo sempre que ela não está apartada da vida, mas que diz da pessoa e do mundo, em toda sua complexidade. Sabemos, portanto que, tanto para nós, da revista, quanto para os 30 artistas aqui reunidos, é imprescindível repensar a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) – 70 anos depois de ela ter sido publicada – dentro de um contexto ao mesmo tempo crítico, criativo, autoral e coletivo.

A própria Declaração foi gestada por gente de várias partes do planeta, cada uma contribuindo para uma síntese que ambicionava uma sociedade mais justa, igualitária, segura, próspera e, no final das contas, mais humana. Ler os 30 artigos que compõem esse texto aprovado em assembleia da ONU, em 10 de dezembro de 1948, evidencia – a um só tempo – o seu caráter urgente e utópico. Tanto antes quanto hoje estamos distantes de colocar em prática várias das aspirações manifestas nesse belo documento humanitário. Algum dia cumpriremos essas 30 determinações para que a humanidade viva de forma equânime?

Certamente, algumas nações conseguiram e conseguem colocar muitas delas em prática. Mas nós, que habitamos excolônias e países “periféricos”, sofremos diariamente a sua ausência, de forma tantas vezes brutal. Também observamos que, diante do avanço radical do neoliberalismo e do recrudescimento do conservadorismo no Ocidente, mesmo os países “centrais” e ricos contradizem as orientações da DUDH. Assim é que tentamos, com as armas de que dispomos chamar a atenção para a atualidade e a necessidade de voltarmos à Declaração Universal dos Direitos Humanos, de aplicá-la e vivê-la, todo dia, em todo lugar, com todos.

Boas ideias precisam de verniz

por André Valença

 

Tem uns anos já, que uma parcela da direita no país acusa as instituições de ensino, os órgãos públicos e o segmento artístico de promoverem o que um “filósofo” específico rotula de “máfia gramsciana”. Seria uma estratégia de controle ideológico nas diversas camadas sociais brasileiras, perpetrada por formadores de opinião e agentes culturais. Professores estariam introjetando vocabulário e valores esquerdistas na mente dos alunos, criando o embrião de um exército subversivo. Artistas estariam sendo financiados pelas leis de incentivo à cultura para produzir propaganda comunista e viver numa perpétua bacanal às custas do Estado. Uma doideira só.

Se isso te faz pensar num dos zilhares de memes alarmistas comparando o Brasil de hoje em dia à Venezuela, não é alucinação. Ou então estamos alucinando juntos. A fake new é um troço poderoso, que quando repetida mil vezes vira um novelo emaranhado – além receber sua flexão gramatical mais conhecida: o famigerado plural fake news. No entanto, elas pegam as pessoas de jeito não só por conta da velocidade do disparo, mas também pelo fato de muitas vezes servirem como amostras grátis para narrativas mais estruturadas, como aquela ali em cima. Porque aquilo lá tem algumas raízes no real, por mais estapafúrdio que pareça.

Fatos históricos sensíveis do século XX colaboraram para criar no Brasil um fosso entre uma esquerda comprometida com fragilidade da vida e uma direita regressista e ressentida que, tornando-se discurso vencido, recorreu à tese paranoica da patrulha. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), capitaneada pela ONU, é uma resposta direta à experiência atroz da Segunda Guerra Mundial, iniciada por uma ditadura nazifascista. A truculência exercida durante as ditaduras militares na América Latina foi largamente direcionada a militantes de esquerda. Como consequência, a defesa dos direitos humanos no país se tornou muito mais uma pauta do centro e da esquerda no pós-redemocratização e, organicamente, encontrou vereda para dentro das escolas, dos museus etc. Aqueles que se assumiam explicitamente como direita sofreram ostracismo político. E aproveitaram o tempinho que tinham nas mãos para costurar essa retórica de oposição com verdades alternativas.

Não surpreende, portanto, a ressurgência desse Leviatã chamado conservadorismo brasileiro, desta vez aliado a um liberalismo selvagem. O primeiro entra para cercear costumes e implantar uma moral unívoca, o outro chega para afrouxar direitos trabalhistas e livrar o estado de compromisso social. Terreno fértil para o surgimento de gente que, se não despreza, refuta os direitos humanos; se não refuta, afronta; se não afronta, enfrenta. E aproveita e embrulha o próprio rancor num antagonismo ao tal “politicamente correto”. Natural também as mentes livres e criativas encontrarem seu lugar no âmbito oposto. O papel que, parece, a arte decidiu assumir nesta encruzilhada histórica é o de ser um parâmetro de compaixão. Um vetor que aponta – por afirmação ou por contestação – para a transformação social. Ou seria somente uma bacanal?

Portanto, associar a DUDH a uma expressão artística não é nenhum alinhamento astral. Não é descobrir que The dark side of the moon realmente toca sincronizado com O mágico de Oz. É claro como a luz do dia. Jards Macalé inclusive já fez isso em 1973: comemorou os 25 anos da carta com o disco O banquete dos mendigos. E olhe que no fim das contas até a DUDH é falha e desatualizada (o título em francês, por exemplo, fala de “direitos do homem”, ao invés de “humanos”), embora ainda seja uma ideia das boas: um acordo transversal que define ao mesmo tempo a sua liberdade, o espaço do outro e os direitos de todos. O problema é que boas ideias perdem o brilho com o tempo e, na presente tormenta, tem um povo aí jogando baixo para que elas caiam no esquecimento. Ora, se o jogo deles é baixo, baixo também é o tamborete, que a gente usa pra sentar ou pra subir. E por isso mesmo surgiu esta edição do Mutirão, com muito artista massa envernizando as boas ideias da DUDH e reescrevendo com o pincel o que ali está ultrapassado; tentando pegar um calço para ficar acima da intolerância.

direção geral

Celso Filho

direção artística

Raul Souza

produção

Arthur Braga

Hermano Ramos

redação

André Valença

produção gráfica

Janio Santos

 

artistas

Bia Melo
Biarritzzz

Catarina Dee Jah

Celso Filho

Clara Moreira

Clara Nogueira

Clara Simas

Eduardo Nóbrega

Felipe Vaz

Guilherme Moraes

Hana Luzia

Ianah

Isabela Stampanoni

Isabella Alves

Joana Liberal

João Lin

Laura Pascoal

Marília Feldhues

Mascaro

Mauricio Nunes

Mello

Priscila Lins

Raoni Assis

Raul Luna

Raul Souza

Rodrigo Gafa

Roger Vieira

Simone Mendes

Thales Molina

Wictor, OUTRO

realização

Mutirão

 

apoio

Revista Continente

contato

mutirao.contato@gmail.com